Onde o efeito apareceu com mais força
Cada município do projeto é comparado com três municípios muito parecidos com ele em 2019, antes de o programa começar — mesma região, rede de tamanho semelhante, economia parecida e, o mais importante, Ideb, aprovação e atraso escolar praticamente iguais. Esses três são os espelhos: o melhor palpite disponível do que teria acontecido com o município caso ele não tivesse entrado.
Ganho líquido = quanto o município subiu de 2019 a 2025 − quanto os espelhos dele subiram no mesmo período.
Descontar os espelhos é o que separa o que veio do projeto do que teria acontecido de qualquer jeito. O Brasil inteiro subiu no período: olhar só o antes e o depois superestima o efeito.
O programa inteiro, antes dos destaques
Os 36 municípios da T22 nos anos finais ganharam, em média, +0,17 ponto de Ideb em relação aos seus espelhos. 18 dos 36 ficaram acima dos comparáveis.
+0,18 ponto de Ideb, com intervalo de 95% entre −0,21 e +0,57 (p = 0,371). A faixa cruza o zero: os dados não permitem afirmar que houve efeito neste recorte. A faixa é a informação honesta — o número isolado sugere uma precisão que o método não tem.
Os municípios fora da curva
Aplicando aos próprios municípios-espelho a mesma conta dos municípios do projeto — a variação de um contra a média dos outros — mede-se quanto de "ganho" o acaso produz entre lugares parecidos que nunca receberam o programa. Nos anos finais, o acaso chega a +1,25 ponto em 95% dos casos. Está fora da curva quem passou disso.
5 dos 36 municípios da T22 nesta etapa passaram da régua. Um deles também sai do ruído na outra etapa — são dois pareamentos independentes, com espelhos diferentes, e coincidir por acaso é bem menos provável. É o sinal mais forte destes dados.
Já descontado o quanto os espelhos avançaram. Todos os listados passam do limiar do acaso; passe o cursor para ver as duas trajetórias que produzem cada barra.
| Município | Nas duas etapas |
Ganho no Ideb
município − espelhos
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Município 2019 → 2025
quanto ele mesmo subiu
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Espelhos 2019 → 2025
quanto os comparáveis subiram
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Matemática | Português |
|---|---|---|---|---|---|---|
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Branquinha (Alagoas)
comparado com Macaúbas, Machados, Água Branca
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Sim | +3,80 | 4,9 → 8,6 | 5,4 → 5,3 | +141,87 | +98,05 |
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Crateús (Ceará)
comparado com Altos, Ariquemes, Catalão
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Só nesta | +1,73 | 5,1 → 7,0 | 4,9 → 5,1 | +79,13 | +25,27 |
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Sobral (Ceará)
comparado com Americana, Mogi das Cruzes, Poá
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Só nesta | +1,33 | 6,9 → 8,0 | 6,0 → 5,7 | +44,66 | +28,14 |
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Mamanguape (Paraíba)
comparado com Coronel João Sá, Montanhas, Touros
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Só nesta | +1,30 | 3,3 → 5,0 | 3,4 → 3,8 | +13,70 | +3,89 |
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Bagre (Pará)
comparado com Araci, Melgaço, Uarini
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Só nesta | +1,30 | 4,0 → 4,9 | 3,8 → 3,4 | +47,33 | +22,07 |
O ganho no Ideb não é o quanto o município subiu. É o quanto ele subiu menos o quanto os espelhos dele subiram no mesmo período — as duas colunas seguintes. O primeiro da lista, Branquinha, variou +3,70 de 2019 a 2025; os espelhos dele, −0,10. O que sobra — +3,80 — é o ganho. O gráfico abaixo mostra essas duas variações lado a lado, município a município.
As duas colunas de trajetória mostram o Ideb com uma casa, como o Inep publica; o ganho vem dos valores cheios. Por isso subtrair as pontas na tela pode dar alguns centésimos de diferença.
Matemática e Português em pontos da escala Saeb, já descontado o avanço dos espelhos. Cerca de 25 pontos equivalem, aproximadamente, a um ano de aprendizagem. Rede municipal, ano-base 2019.
Cada dupla é um município do projeto e a média dos três espelhos dele, na mesma escala de Ideb. A distância entre as duas linhas de uma dupla é o que a coluna ganho no Ideb da tabela resume: o município anda mais que o comparável dele.
O número à direita de cada linha é a variação dela, não o ganho: quanto aquele município — ou a média dos espelhos dele — variou de 2019 a 2025. Subtraindo a de baixo da de cima sai o ganho no Ideb da tabela. Por isso as variações aparecem com duas casas, enquanto o Ideb de cada ponta segue com uma, como o Inep publica.
Como estes números são calculados
Por que não basta olhar antes e depois
Se um município tinha Ideb 5,0 em 2019 e chegou a 6,0 em 2025, subiu 1 ponto. Mas o Brasil inteiro subiu no período: parte dessa alta veio de fatores sem relação com o programa. Comparar com municípios parecidos é o que separa uma coisa da outra.
Como os espelhos são escolhidos
Por escore de propensão: um modelo estima, para cada município brasileiro, a chance de ele estar no projeto, dadas sete características de 2019 — região, matrículas, PIB, gasto por aluno, Ideb, taxa de aprovação e distorção idade-série. Cada município do projeto recebe os três de chance mais próxima que ficaram de fora. Nenhum município de qualquer turma do Centro Lemann entra como espelho.
O escore sozinho não basta: ele resume as sete num número, e as diferenças se compensam. Por isso há um limite de semelhança — só entra como espelho quem estiver a menos de 1 ponto de Ideb, dentro de três vezes o porte da rede e a menos de meio desvio padrão na distorção idade-série. O escore escolhe entre os que passam por esse filtro.
Por que 2019 e não 2023
2019 é a última edição do Ideb antes da pandemia e antes de qualquer turma entrar. 2021 é a edição da pandemia, e 2023 já está sob efeito do programa nas duas turmas — escolher espelhos por ele seria comparar depois de a intervenção começar.
Como se decide o que é "fora da curva"
Um ganho de meio ponto de Ideb é muito ou pouco? A pergunta não tem resposta sem uma referência — e mostrar simplesmente os dez maiores esconde isso, porque uma lista de tamanho fixo sempre tem dez linhas, mesmo quando só três municípios se destacaram.
A referência vem dos próprios espelhos. Eles nunca receberam o programa. Aplicando a eles a mesma conta dos municípios do projeto — a variação de um contra a média dos outros do mesmo grupo — o que sai não pode ser efeito de nada: é a diferença de trajetória que existe naturalmente entre lugares parecidos. Isso dá a medida do acaso:
| Etapa | Comparações | Mediana | Limiar (95%) | Máximo |
|---|---|---|---|---|
| Anos Iniciais | 192 | +0,05 | +1,24 | +4,25 |
| Anos Finais | 150 | 0,00 | +1,25 | +3,00 |
Está fora da curva quem passou do limiar — o ganho que o acaso só supera em 5% dos casos. A coluna do máximo é a mais eloquente: entre municípios comparáveis, sem programa nenhum, a variação natural chegou a produzir +4,25 pontos de Ideb. É a medida mais concreta de por que um ganho isolado, sem referência, não sustenta afirmação.
As duas etapas saíram com réguas praticamente iguais nesta rodada. O cálculo junta as turmas dentro de cada etapa para ter base maior, e usa percentil em vez de desvio padrão porque a distribuição não é simétrica. O limiar sai levemente exigente de propósito: o município do projeto é comparado com três espelhos, e cada espelho com dois — média de menos observações varia mais. Errar para o lado exigente é o lado certo de errar quando se vai chamar um município de caso de sucesso.
O que estes números não dizem
O ganho líquido de um município não tem margem de erro. Os espelhos de um município específico são intercambiáveis entre dezenas de candidatos igualmente parecidos, e trocar um único espelho já muda o número. Por isso a leitura de tamanho fica com o efeito estimado e sua faixa de 95%, e os casos ficam como ilustração.
Um município com Ideb muito alto quase não tem comparável. Sem o limite de semelhança, os espelhos de Sobral chegaram a incluir Fortaleza e Salvador; com ele, o preço mudou de lugar — entram municípios do interior paulista com rede de porte parecido, que gastam quase o dobro por aluno. Com sete características, apertar uma empurra a folga para outra. É por isso que a tabela mostra com quem cada município foi comparado: dá para julgar a comparação, não só aceitá-la.
O detalhamento completo — diferenças em diferenças, testes de tendências paralelas, placebo e balanceamento — está na aba O estudo de impacto.