Onde o efeito apareceu com mais força
Cada município do projeto é comparado com três municípios muito parecidos com ele em 2019, antes de o programa começar — mesma região, rede de tamanho semelhante, economia parecida e, o mais importante, Ideb, aprovação e atraso escolar praticamente iguais. Esses três são os espelhos: o melhor palpite disponível do que teria acontecido com o município caso ele não tivesse entrado.
Ganho líquido = quanto o município subiu de 2019 a 2025 − quanto os espelhos dele subiram no mesmo período.
Descontar os espelhos é o que separa o que veio do projeto do que teria acontecido de qualquer jeito. O Brasil inteiro subiu no período: olhar só o antes e o depois superestima o efeito.
O programa inteiro, antes dos destaques
Os 16 municípios da T23 nos anos finais ganharam, em média, +0,14 ponto de Ideb em relação aos seus espelhos. 11 dos 16 ficaram acima dos comparáveis.
+0,21 ponto de Ideb, com intervalo de 95% entre −0,12 e +0,54 (p = 0,214). A faixa cruza o zero: os dados não permitem afirmar que houve efeito neste recorte. A faixa é a informação honesta — o número isolado sugere uma precisão que o método não tem.
Os municípios fora da curva
Aplicando aos próprios municípios-espelho a mesma conta dos municípios do projeto — a variação de um contra a média dos outros — mede-se quanto de "ganho" o acaso produz entre lugares parecidos que nunca receberam o programa. Nos anos finais, o acaso chega a +1,25 ponto em 95% dos casos. Está fora da curva quem passou disso.
Nenhum município deste recorte sai do ruído
11 dos 16 municípios da T23 ficaram acima dos seus espelhos nos anos finais, mas nenhum passou de +1,25 ponto — o que a variação natural entre municípios comparáveis já produz em 95% dos casos.
Isso não quer dizer que o programa não funcionou aqui: o efeito médio do recorte está acima, com sua faixa. Quer dizer que não há caso individual que se sustente sozinho — e apresentar um seria escolher o mais sortudo.
Como estes números são calculados
Por que não basta olhar antes e depois
Se um município tinha Ideb 5,0 em 2019 e chegou a 6,0 em 2025, subiu 1 ponto. Mas o Brasil inteiro subiu no período: parte dessa alta veio de fatores sem relação com o programa. Comparar com municípios parecidos é o que separa uma coisa da outra.
Como os espelhos são escolhidos
Por escore de propensão: um modelo estima, para cada município brasileiro, a chance de ele estar no projeto, dadas sete características de 2019 — região, matrículas, PIB, gasto por aluno, Ideb, taxa de aprovação e distorção idade-série. Cada município do projeto recebe os três de chance mais próxima que ficaram de fora. Nenhum município de qualquer turma do Centro Lemann entra como espelho.
O escore sozinho não basta: ele resume as sete num número, e as diferenças se compensam. Por isso há um limite de semelhança — só entra como espelho quem estiver a menos de 1 ponto de Ideb, dentro de três vezes o porte da rede e a menos de meio desvio padrão na distorção idade-série. O escore escolhe entre os que passam por esse filtro.
Por que 2019 e não 2023
2019 é a última edição do Ideb antes da pandemia e antes de qualquer turma entrar. 2021 é a edição da pandemia, e 2023 já está sob efeito do programa nas duas turmas — escolher espelhos por ele seria comparar depois de a intervenção começar.
Como se decide o que é "fora da curva"
Um ganho de meio ponto de Ideb é muito ou pouco? A pergunta não tem resposta sem uma referência — e mostrar simplesmente os dez maiores esconde isso, porque uma lista de tamanho fixo sempre tem dez linhas, mesmo quando só três municípios se destacaram.
A referência vem dos próprios espelhos. Eles nunca receberam o programa. Aplicando a eles a mesma conta dos municípios do projeto — a variação de um contra a média dos outros do mesmo grupo — o que sai não pode ser efeito de nada: é a diferença de trajetória que existe naturalmente entre lugares parecidos. Isso dá a medida do acaso:
| Etapa | Comparações | Mediana | Limiar (95%) | Máximo |
|---|---|---|---|---|
| Anos Iniciais | 192 | +0,05 | +1,24 | +4,25 |
| Anos Finais | 150 | 0,00 | +1,25 | +3,00 |
Está fora da curva quem passou do limiar — o ganho que o acaso só supera em 5% dos casos. A coluna do máximo é a mais eloquente: entre municípios comparáveis, sem programa nenhum, a variação natural chegou a produzir +4,25 pontos de Ideb. É a medida mais concreta de por que um ganho isolado, sem referência, não sustenta afirmação.
As duas etapas saíram com réguas praticamente iguais nesta rodada. O cálculo junta as turmas dentro de cada etapa para ter base maior, e usa percentil em vez de desvio padrão porque a distribuição não é simétrica. O limiar sai levemente exigente de propósito: o município do projeto é comparado com três espelhos, e cada espelho com dois — média de menos observações varia mais. Errar para o lado exigente é o lado certo de errar quando se vai chamar um município de caso de sucesso.
O que estes números não dizem
O ganho líquido de um município não tem margem de erro. Os espelhos de um município específico são intercambiáveis entre dezenas de candidatos igualmente parecidos, e trocar um único espelho já muda o número. Por isso a leitura de tamanho fica com o efeito estimado e sua faixa de 95%, e os casos ficam como ilustração.
Um município com Ideb muito alto quase não tem comparável. Sem o limite de semelhança, os espelhos de Sobral chegaram a incluir Fortaleza e Salvador; com ele, o preço mudou de lugar — entram municípios do interior paulista com rede de porte parecido, que gastam quase o dobro por aluno. Com sete características, apertar uma empurra a folga para outra. É por isso que a tabela mostra com quem cada município foi comparado: dá para julgar a comparação, não só aceitá-la.
O detalhamento completo — diferenças em diferenças, testes de tendências paralelas, placebo e balanceamento — está na aba O estudo de impacto.